O que pode dar certo em 2016

O que pode dar certo em 2016


Por Luiz Guilherme Dias | 05/Dez/2016.

Foto02_Post01 “Só quero saber / Do que pode dar certo / Não tenho tempo a perder.” (Torquato Neto e Sérgio Brito – Titãs).

 

Segundo a agência de notícias ADVFN o índice de bilionários da Bloomberg mostra que os 400 mais ricos do mundo viram suas fortunas cair coletivamente US$19 bilhões em 2015. Para os analistas, o motivo seria a queda nos preços das commodities e a desaceleração econômica na China. Ora, se bilionários no mundo amargam perdas significativas em seus patrimônios, porque nós mortais brasileiros não podemos enfrentar os mesmos desafios em proporção da riqueza de cada um?

Começando com um balanço no final de 2015 dos principais indicadores macroeconômicos, vemos um quadro bastante crítico, mas não necessariamente desanimador, como veremos a seguir:

  • inflação medida pelo IPCA de 10,48% (o centro da meta é 4,5%) a maior desde 2010;
  • dívida pública em 67% do PIB, recorde anual desde 2011;
  • PIB com previsão de queda de 3,7%, já tendo caído para 0,14% em 2014;
  • taxa de desemprego em 7,5% da PEA (população economicamente ativa), recorde anual desde 2011;
  • resultado primário negativo em 1% do PIB, equivalente a um déficit de R$21,3bilhões, recorde anual desde 2011 e risco país medido em CDS (credit default swaps) de 502,3 pontos, o maior desde a sua criação em 01/Jan/2013 quando iniciou a série com 100 pontos.

Pela ótica dos rendimentos dos investimentos, os fundos cambiais (até 24/Dez/2015) foram os “campeões” com rentabilidade acumulada de 50,8% e o Ibovespa foi o “lanterninha” com perda acumulada de 13,3%. O gráfico a seguir ilustra os retornos de diferentes tipos de investimentos em 2015.

Rendimento dos Investimentos em 2015 – Fonte: O Globo de 31/Dez/2015

Rendimento dos Investimentos em 2015 
Fonte: O Globo de 31/Dez/2015

As altas rentabilidades dos fundos cambiais são explicadas pela disparada da cotação comercial da moeda americana que alcançou uma valorização de 48,4%, recorde anual desde os 53,2% em 2002, por ocasião da posse do Presidente Lula. Embora haja controvérsias, para alguns brasileiros ortodoxos quem investe em dólar é ladrão, pois rouba a pátria.

O retorno de 13,7% da Renda Fixa é, em parte, atribuído aos investimentos no Tesouro Direto que buscaram proteção emprestando dinheiro para o Governo que já está bastante endividado. Com a formidável taxa de juros Selic à 14,25% ao ano (e deve ainda subir mais em 2016) o número de aplicadores no Tesouro Direto cresceu 70% em 2015 e encostou no número de investidores individuais em ações de empresas brasileiras, perto de 600 mil pessoas físicas. E os tradicionais poupadores das 137 milhões de contas de caderneta de poupança auferiram uma rentabilidade nominal de 8,1%, portanto real e negativa em cerca de 2,5 ppt, considerando a inflação anual de 10,48%.

As baixas rentabilidades dos Fundos de Ações (entre –3% e –9%) e do Índice BOVESPA de –13,3% refletem a fuga dos investimentos que respondem pela produção e pelo crescimento das empresas abertas brasileiras. De fato não deveríamos esperar resultado diferente em nossa Bolsa com uma economia combalida e ainda sem perspectiva de melhora. Em outro artigo publicado recentemente sob o título “Educação do Investidor como Criação de Cultura só acontecerá com efeito ‘tsunami’”, discutimos a questão da educação financeira tendo como alicerce a criação de uma verdadeira cultura de investimentos por pessoas de diferentes classes sociais e de renda, considerada por nós condição “sine qua non” para promover e intensificar investimentos em ações de empresas e romper o tabu que a Bolsa foi criada apenas para profissionais ou endinheirados.

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Diante deste quadro surge a dúvida: O que farão os empresários brasileiros? De acordo com uma sondagem sobre investimentos do IBRE/FGV (Instituto Brasileiro de Economia), divulgada em meados de Jun/2015, 82% dos gestores de empresas consultados não pretendem investir neste ano — ou afirmam que vão investir menos do que previam anteriormente. Mas há quem, desde já, escolha uma alternativa: acelerar os negócios. Segundo o IBRE, é isso o que os outros 18% dos entrevistados pretendem fazer. Vemos aqui a quase perfeita aplicação da Lei de Pareto: parte desses empresários espera crescer durante a crise. Pode soar contraditório, mas, em alguns setores, um cenário ruim como o atual oferece oportunidades para a expansão.

Nosso país é muito rico para a gente desperdiçar desse jeito, como lembra o investidor Guilherme Affonso Ferreira, gestor do Fundo Teorema. Existem coisas boas acontecendo e as pessoas não percebem, como por exemplo, a melhor safra da história do Brasil na produção de alimentos: a colheita brasileira de grãos em 2014/2015 alcançou o recorde de quase 210milhões de toneladas, graças a investimentos em produtividade. Para Ferreira o desânimo com o país é muito mais sério do que seus problemas estruturais. Precisamos, pois retomar a confiança no futuro do país, pois não há crise que não acabe, assim como não há rio que não deságue no mar.

Para isso, necessitamos de informações como as que publicamos em nossos artigos sobre as empresas brasileiras de capital aberto. Se o cenário político-econômico piorar, como muitos antecipam, a bolsa deverá cair mais ainda por constituir um termômetro que antecipa as tendências da economia como um todo. Mas, mesmo assim, continuarão a existir ações baratas de boas empresas com boa governança corporativa. É nosso papel como investidor identificar essas oportunidades, mas sempre olhando um horizonte mínimo de 3 a 5 anos.

 

COMENTÁRIOS FINAIS:

Variados estudos sobre investimentos financeiros ou finanças comportamentais sinalizam que investidores que tentam acertar o melhor momento para investir na bolsa costumam se dar mal, seja porque compram no meio de um movimento de alta, seja porque vendem quando as ações já se desvalorizaram demais. É o eterno conflito entre o medo (vou perder se não comprar/vender) e a ganância (posso ganhar mais se não vender/comprar). Daniel Kahneman explica de forma muito clara em seu livro “Rápido e Devagar – Duas formas de pensar” como estamos sempre expostos a influências que podem minar nossa capacidade de julgar e agir com clareza. No caso dos investimentos Kahneman indaga: Por que o medo de perder é mais forte do que o prazer de ganhar? O livro é leitura obrigatória para quem investe.

Concluindo, num momento como este incentivar a confiança é a chave para a mudança, pois sem confiança não há investimento e sem investimento não há crescimento da economia. Segundo o IBRE/FGV os indicadores de confiança estão nos níveis mais baixos desde 2001. Com uma visão otimista para a bolsa brasileira no longo prazo podemos dizer: “Nunca desista da Bolsa. Compre ações quando ninguém quer. Se você tem algum dinheiro sobrando, coloque uma parte em Bolsa em 2016“.

Seguindo nossa missão de prover conteúdo útil sobre as companhias abertas, manteremos você atualizado com novas informações sobre as companhias do mercado extraídas do nosso Banco de Dados SABE.

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Luiz Guilherme Dias é Sócio-Diretor da SABE Consultores, Consultor de Empresas e Conselheiro Certificado.

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2 Comments

  • newton bruver

    12 de janeiro de 2016

    Meu caro Luiz Guilherme,
    Achei seu artigo muito interessante e bastante lúcido.Compartilho de suas idéias. Vejo um momento difícil para o Brasil ,mas acredito numa recuperação de sua economia em qualquer momento. Esse país tem potencialidades enormes como poucos outros.Momentos difíceis como esse já experimentamos no passado .Posso dizer que estamos vacinados.
    Olhando para a Bovespa ,é clara nossa exasperação devido ao caos que demonstra. No entanto vemos um bom momento para investir em papéis de empresas solidas e com grande potencial de crescimento e que ora estão a preço de banana.
    Um grande abraço de
    Newton

    • Olá Caro Newton,
      Em primeiro lugar agradeço seu comentário.
      De fato estamos vivendo um momento de elevada incerteza política, econômica, social e até mesmo ambiental, o que, a meu ver, gera falta de confiança no futuro do país e do planeta.
      Mas, como você mesmo sinalizou toda crise traz no seu bojo oportunidades nem sempre percebidas pelo agentes do mercado.
      Vamos, portanto, procurar perceber o lado “meio cheio” do copo e continuar acreditando.
      Um forte abraço,
      Luiz Guilherme Dias.

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